O movimento estudantil secundarista tem sido uma peça-chave nos processos de mobilização social da América Latina. No entanto, seu estudo histórico tem sido marcado por lacunas, especialmente no que se refere ao papel das mulheres. Para contribuir para reduzir essa brecha, o projeto Dicyt 2025, liderado pelo professor e diretor do Departamento de História, Dr. Rolando Álvarez, em colaboração com a historiadora Dra. Yanny Santa Cruz, propõe um olhar comparativo e de gênero sobre as experiências de participação de mulheres estudantes do ensino médio no Cone Sul entre 1957 e 1976.
“O título do projeto, ‘Nunca mais secundaristas’, tem um duplo sentido. Por um lado, alude às estudantes do ensino médio, mas também busca interpelar seu lugar historicamente secundário nos relatos oficiais do movimento estudantil”, explica Santa Cruz. A pesquisa se concentra no Chile, na Argentina e no Uruguai, países que compartilharam processos semelhantes de radicalização política, surgimento de novas esquerdas e posteriores ditaduras. “Queríamos ver o que estava acontecendo com as secundaristas nessa longa década que tem sido tão estudada a partir da universidade, mas pouco a partir do nível escolar”, acrescenta.
O estudo parte de uma constatação metodológica: as fontes sobre estudantes secundaristas são escassas e dispersas. Isso levou a equipe a desenvolver um trabalho rigoroso de leitura de imprensa, arquivos escolares e entrevistas. “Estudar o ensino médio é mais difícil do que a universidade, porque os registros são fragmentários. Mas isso faz parte do desafio de fazer história social e feminista”, comenta Santa Cruz.
Um dos eixos do projeto é investigar como as mulheres participaram desses movimentos, especialmente em contextos marcados pela educação monogenérica. “No Chile, por exemplo, as escolas femininas permitiram maiores espaços de politização. Em organizações estudantis mistas, no entanto, a liderança continuava sendo masculina. Queremos entender essas dinâmicas internas e a forma como as lideranças femininas se articulavam com as masculinas”, assinala.
Longe de se concentrar apenas em figuras excepcionais, a pesquisa busca resgatar o protagonismo coletivo. “Muitas vezes se destaca a primeira médica, a primeira cientista. Mas por trás dela havia muitas outras mulheres que sustentavam as lutas e a vida cotidiana. O que me interessa é pensar o gênero como experiência coletiva, não como excepcionalidade”, enfatiza.
Além de sua dimensão acadêmica, o projeto também se vincula a iniciativas de memória ativa. Yanny Santa Cruz impulsionou o Arquivo e Projeto de Memórias Liceanas, que busca aproximar esses processos históricos das comunidades escolares atuais. “É fundamental que nossas pesquisas não fiquem apenas em artigos que ninguém lê. É preciso levá-las às escolas, conversar com os estudantes, reconstruir o sentido histórico de suas próprias lutas”, afirma.
O trabalho busca dialogar com o presente a partir de uma perspectiva crítica e situada. “Embora estejamos estudando os anos 1960, muitas das disputas de gênero e poder continuam atuais. E ainda mais hoje, com o avanço de discursos conservadores que negam a agência política das mulheres e dos movimentos estudantis”, conclui.
Com essa pesquisa, a equipe espera contribuir para uma reconstrução mais inclusiva da história do movimento estudantil, posicionando as vozes das jovens mulheres como sujeitas ativas de transformação. Ao mesmo tempo, reforçam o compromisso da Faculdade de Humanidades com uma história crítica, feminista e profundamente vinculada às lutas sociais do presente.
