Salmonicultura chilena: a Usach impulsora pesquisa-chave para proteger a indústria nacional contra doenças virais
O Dr. Marcelo Cortez, professor e pesquisador da Faculdade de Química e Biologia da Usach, lidera um projeto Fondecyt Regular que busca antecipar o comportamento do vírus ISAV, responsável por uma grave crise na salmonicultura nacional. A iniciativa aplicará genética reversa para identificar seus fatores de virulência e propor métodos de diagnóstico e vacinas mais eficazes.
Descripción de la imagen: Salmões no mar
Camilo Araya Bernales
19 de junho
Em 2007, a indústria salmonicultora chilena enfrentou uma de suas piores crises sanitárias, quando um surto do vírus da anemia infecciosa do salmão (ISAV) afetou centenas de centros de cultivo no sul do país, provocando taxas de mortalidade próximas a 90%. O impacto foi tão grande que 60% dos centros deixaram de produzir, e mais de 100 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente por demissões e outras perdas associadas.
Atualmente, o Chile é o segundo maior produtor de salmão do mundo, atrás apenas da Noruega, com um recorde de 1.090.000 toneladas líquidas em 2023, distribuídas entre salmão do Atlântico, salmão do Pacífico e truta arco-íris. Essa indústria, estratégica para a economia nacional, expandiu-se principalmente nas regiões austrais do país. No entanto, seu rápido crescimento tem sido acompanhado por grandes desafios sanitários, sendo as doenças virais uma das principais ameaças à saúde dos peixes e à sustentabilidade do setor.
A partir da Universidade de Santiago do Chile, o Dr. Marcelo Cortez, professor da Faculdade de Química e Biologia desde o final de 2008, decidiu direcionar parte de seu trabalho científico ao estudo do vírus ISAV após a crise sanitária iniciada em 2007. Hoje, essa linha de pesquisa se consolida com a aprovação do projeto Fondecyt Regular #1251842, cujo objetivo é compreender os mecanismos genéticos que determinam a agressividade do vírus, prever o comportamento de novas variantes e gerar informações-chave para o desenvolvimento de vacinas e sistemas de diagnóstico mais precisos.
O projeto utiliza um sistema de genética reversa que permite desenhar versões modificadas do vírus em laboratório. Em outras palavras, os pesquisadores retiram fragmentos do material genético, fazem modificações controladas e os introduzem em células para que estas produzam novas versões do vírus com as características específicas que se deseja estudar. Dessa forma, poder observar como certas alterações genéticas influenciam seu comportamento, como a capacidade de infectar, replicar-se ou escapar da resposta imune.
“O vírus da anemia infecciosa do salmão pertence à mesma família do vírus da influenza humana, os Orthomyxovirus, e, assim como o vírus da gripe pode causar pandemias em humanos, o ISAV no Chile se comportou de maneira muito semelhante, pois provocou uma epidemia local com altíssima mortalidade, afetando um enorme número de peixes em pouco tempo. A partir desse projeto, pretendemos estudar, do ponto de vista molecular, quais são os marcadores de virulência, especialmente a proteína de fusão, que fazem com que, dentro da espécie viral, um vírus seja mais agressivo que outro.
Nesse contexto, os marcadores de virulência correspondem a mudanças ou mutações no genoma do vírus que alteram as características das proteínas que ele produz. Essas alterações podem fazer com que o vírus se propague com maior facilidade entre os indivíduos, aumentem sua capacidade de causar doença ou até permitam que ele escape da resposta imune gerada pelas vacinas. Em outras palavras, são as chaves genéticas que determinam o quão perigoso um vírus pode se tornar, e conhecê-las permite antecipar seu comportamento diante de surtos, além de possibilitar o desenvolvimento de ferramentas mais eficazes para seu controle.
“Estudar esses fatores nos permite projetar o comportamento de uma nova variante viral antes que ela chegue a causar um surto. É uma forma de nos anteciparmos aos acontecimentos e nos prepararmos melhor, tanto no diagnóstico quanto no desenvolvimento de vacinas. Podemos identificar quais mutações devemos buscar bloquear no futuro e até desenhar uma vacina que proteja contra variantes que ainda não existem. Esse é um dos grandes aportes que esta pesquisa pode oferecer a partir do laboratório”, destaca o Dr. Marcelo Cortez.
Para além de sua contribuição direta ao estudo do vírus ISAV, este projeto representa uma oportunidade estratégica para fortalecer as capacidades científicas do país em uma área como a virologia, promovendo a multidisciplinaridade, por exemplo, por meio da colaboração com a Dra. Yesseny Vásquez, da Escola de Medicina da Usach, e a Dra. Margarita Montoya, do Departamento de Biologia, copesquisadoras do projeto. O trabalho em laboratório não apenas gera conhecimento, mas também impulsiona a formação de pesquisadores, o desenvolvimento de técnicas especializadas e a consolidação da infraestrutura científica.
“No Chile, a virologia é uma disciplina ainda pouco consolidada. Somos muito poucos os que atuam nesse campo e carecem da infraestrutura necessária para crescer. Não há congressos especializados, o que torna necessário que o país fortaleça a virologia não apenas para enfrentar futuras crises sanitárias, mas também para se posicionar como um ator relevante em ciência e biotecnologia”, conclui o pesquisador da Usach.
